Nei Franklin e Gustavo Ferro
Alunos do curso de Artes Visuais compartilham experiência de produzir uma exposição
Recentemente, os alunos Nei Franklin e Gustavo Ferro, do curso de Artes Visuais, da Faculdade Belas Artes, montaram uma exposição no Estúdio Valongo, no centro de Santos (SP). Agora, em uma auto-entrevista, Nei e Gustavo compartilham esta experiência e contam como foi ser curadores, produtores e artistas; tudo na mesma exposição.
Gustavo Ferro: Nei, por que você escolheu o Curso de Artes Visuais na Belas Artes?
Nei Franklin: Bem, tu sabes que sou de São Luís (MA). Na verdade, nasci em Jundiaí, no interior de São Paulo e fui, ainda criança, pra São Luís com meus pais, que são de lá. Também morei em Brasília por um tempo, até chegar novamente a São Paulo. Vim para ficar 20 dias de férias e decidi ficar para estudar e trabalhar. A escolha do curso foi uma coisa natural, e, embora na minha família não haja artistas de nenhuma área, não encontrei barreiras, ao contrário. Em São Luís, a partir dos 12, comecei a participar de cursos e oficinas de férias na escola, a primeira foi promovida pelo SESC e as seguintes com artistas da cidade. Nesse período, tive contato com teatro, música, cinema e exposições, além de trabalhar como roadie durante quatro anos, o que me proporcionou algumas viagens e outras experiências.
A Belas Artes é uma ótima faculdade, tem excelentes professores que são artistas, a biblioteca é muito boa, fiz bons amigos e o café do Irmão e do Antonio é o melhor da Vila Mariana. E você, Gustavo, conte um pouco da sua trajetória e como foi a experiência com a Exposição Equilíbrio Instável no Estúdio Valongo?
Gustavo Ferro: sempre esqueço de que você morou em Brasília, agora imagino as influências disso no seu trabalho hoje...
Bem, uma experiência que foi e continua sendo, afinal a exposição ainda não acabou. Eu nasci em Santos, curiosamente estou aqui agora, fugindo um pouco da relação vertical que existe em São Paulo - o excesso de movimento. Aqui as coisas são um pouco diferentes, mesmo com o tempo fechado existe um cinema que rola na praia e essa relação com o horizonte, que é totalmente irreconhecível na megalópole. Como disse, eu nasci aqui e também lá pelos meus 12 anos tive interesse em fazer alguns cursos de desenho, o que continuei fazendo até sair da cidade e ir estudar na Belas Artes. Concluí o curso de Artes Visuais esse semestre e a exposição no Estúdio Valongo está sendo como uma espécie de fechamento de ciclo, o regresso (mesmo que momentâneo) para a cidade de origem "depois de uma viagem". Algo que foi marcante nesse percurso entre a formação na universidade, foi a residência artística de três meses realizada em Barcelona, no espaço Hangar através do apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo; onde minha relação com a cidade e com a cultura me fizeram repensar o trabalho de diversas formas. Equilíbrio Instável é uma situação limite, é algo que está em risco, que precisa ser anunciado e percebido em nosso cotidiano. São as próprias relações estabelecidas no ambiente urbano, sem muita resistência, superficial... isso me lembra os tipos de materiais utilizados nos teus trabalhos, fale um pouco sobre isso...
Nei Franklin: sobre os materiais que utilizo, acho que vai nessa direção do instável, do impermanente e das relações imediatas, não pretendo ter controle das situações ou das coisas. Eu me interesso pelas transformações que podem ocorrer no ser humano e nos trabalhos. Por exemplo, na montagem da exposição em Santos, realizamos um trabalho de equipe, éramos ao mesmo tempo curadores, produtores e artistas. A gente resolve dar um passeio pelas ruas do centro histórico antes de começar a montagem e encontra o material que precisamos, uma caixa de papelão ou um pedaço de madeira. No espaço expositivo/estúdio olhamos com cuidado alguns objetos e os agregamos a uma instalação. Tudo isso acaba incorporado e a experiência perceptiva do lugar ganha visibilidade, reforçando a atividade que desenvolvemos.
E você, como lida com a escolha dos objetos que utiliza? Tem alguma situação curiosa para contar?
Gustavo Ferro: concordo contigo em relação ao modo como a experiência da exposição foi sendo construída; a principio, não sabíamos como os trabalhos iriam se comportar mutuamente, foi um primeiro momento onde os teus materiais conversaram com os meus. Você disse que não pretende ter muito controle das situações, entendo isso como uma vontade de mudança, de estar aberto a novas configurações, mas algo que observo no teu processo é a escolha decisiva e um certo apego com o material apropriado, como no caso de algumas caixas de papelão que simulam arquiteturas decadentes e por vezes sofisticadas. Utilizo materiais que passam pelas minhas mãos no dia a dia, desde um elástico até uma bola de golfe, experimento relações possíveis entre alguns materiais e outros, apresento como se apresentam para mim.
No caso da exposição Equilíbrio Instável, o que todos tinham em comum era a fácil mobilidade, são objetos pequenos que podem ser guardados em caixas, montei a instalação de parede com alguns cadernos, anotações e desenhos sobre envelopes reutilizados. Muita coisa que levei acabou não sendo agregada ao trabalho, eu me preocupo com algumas relações que vão sendo construídas no próprio espaço, como marcas de pregos e buracos que podem estar na parede. Curioso foi como surgiu o apartamento abandonado onde fizemos a intervenção sonora na abertura da exposição... acho que essa história diz muito de como funciona nossa poética, de trabalhar com encontros, no caso, incorporamos um contexto achado e transformamos a experiência sensorial do espaço através da intervenção. Os visitantes tinham que fazer um anti-fluxo para encontrar o local da ação e se submeter aos fatores que compunham o ambiente, tais como, a luz que diminuía ao entardecer, os tacos acumulados no meio do caminho, a poeira, o som alto e até mesmo os corredores entre apartamentos habitados por onde os expectadores tinham que passar. Todos esses encontros constituíram a intervenção, foi uma modificação também na lógica do prédio. Queria que você dissesse como encara nossa intervenção sonora e se vê alguma relação do som que fazemos com o trabalho tridimensional... e sobre a publicação GFNF #00?
Nei Franklin: as intervenções sonoras começam com a exploração de instrumentos e de espaços muito intuitivamente, e nós dois, com pouca noção musical, mas bastante motivados pelos ruídos causados pelas distorções e repetições de batidas e programações simples, poderemos ainda descobrir mais coisas. Nesse sentido, percebo aproximação com nossos trabalhos tridimensionais, principalmente na questão espacial/relacional e do som, quase em 3D, reverberando nas pessoas. Lembro da sua proposta para o CCSP no ano passado, em que havia os pratos embaixo das lonas e que eram para serem pisados ao acaso, e dali causar algum estranhamento, experiência do espaço sendo descoberto pelas pessoas e gerando mais possibilidades de interpretações e significados.
A publicação GF/NF # 00 foi uma coisa muito bacana de fazer. Reutilizando fitas cassetes compradas a R$ 0,50, criando uma capa e gravando as músicas registradas com câmera fotográfica, minidv e laptop, fizemos o caminho inverso, do digital para o analógico, as coisas ainda estão aí e vamos experimentado... Quem não tiver toca fitas, pode conseguir emprestado com alguém e escutar outras histórias e músicas.
Agora gostaria que você falasse sobre a sua experiência com as intervenções sonoras e como é trabalhar em dupla na construção de uma proposta artística.
Gustavo Ferro: Sabemos que o trabalho coletivo é problemático. Mas quando se trata de uma dupla a coisa é mais simples em pelo menos um sentido: as ideias precisam estar bem claras em relação a pretensões e forma poética de desenvolvimento da proposta, ou seja, os dois indivíduos têm envolvimento e compatibilidade no processo, ou simplesmente a coisa não rola. Nesse sentido, as trocas de experiência e critica mútua dos trabalhos, fazem parte do desenvolvimento do projeto. Acredito que é algo que nunca está pronto, justamente porque está sempre em processo. Vejo a questão com as intervenções sonoras algo inicial e experimental onde ainda não sabemos ao certo onde vai dar, nesse sentido vamos realizando os trabalhos e deixando-os pelo mundo...
Você também pode participar! Escreva a sua história aara ligadonafaculsp@gmail.com
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